Publicado por: Assessoria de Comunicação Fotec | outubro 3, 2013

O mundo Crohn em cotidiano compartilhado

Uma conversa com o potiguar que criou um diário na Web e tornou-se exemplo de superação em batalha contra doença sem cura  

Por Walter Pinheiro Jr.

São dez horas da noite de uma terça-feira de clima bom nos mês de setembro. Após a aula, sigo para uma casa na Rua Pedro Durcina, na Vila de Ponta de Negra, através de um percurso tantas vezes feito antes por mim, porém, por motivos diferentes desse pelo qual eu faço o caminho nesta ocasião. Ele me recebe no portão da sua casa com um largo sorriso no rosto sem se dar conta de que pela primeira vez o estou visitando não como amigo, mas sim como jornalista.

Arthur Morais é um jovem de 22 anos, alto (1,78), magro (55 kg), mais velho de três irmãos (ele e duas meninas), que desde 2008 luta contra a Doença de Crohn: uma enfermidade crônica inflamatória de difícil diagnóstico, que ataca o aparelho digestivo do individuo, tornando-o dependente de um árduo tratamento para o resto da vida, pois não existe cura para tal doença até os dias de hoje. Fã da banda britânica Artic Monkeys, de MPB, livros, arte, internet e fotografia, o rapaz sonha em trabalhar com Design e conhecer vários países do mundo.

Mas então você, caro leitor, deve estar se perguntando “O que a história de Arthur tem de especial?”, eu respondo: poucas são as pessoas que conseguem controlar o seu destino e mudar sua a história de vida. No entanto, bem mais do que isso, poucas são as que conseguem inspirar outras pessoas a mudarem as próprias histórias de vida simplesmente compartilhando a sua. Arthur faz isso desde 2010, utilizando como ferramentas as redes sociais, e principalmente, o seu aclamado blog “Meu Mundo Crohn”.

No caminho da sala para o quarto onde conversaremos, pergunto como ele está, já que o noto um pouco abatido devido a uma infecção intestinal que o acometeu na última semana. “Está tudo bem”, recebo como resposta. O cenário é o seguinte: guarda-roupa, cama, o inseparável notebook ligado em cima dela, mesa de computador desktop, tênis e sandálias enfileiradas no chão, livros arrumados em um cômodo de madeira e umas muitas caixas de remédio em cima desse mesmo cômodo. Detenho meu olhar por uma fração de segundos a mais. “Tô usando sete remédios agora, mas não são do tratamento do Crohn. São para as urticárias da pele, os buracos do meu nariz que ferem nas entradas e um monte de coisa chata que aparece por causa da reação ao medicamento e pela baixa imunidade”, adiantou-se a explicar.

Companheiros inseparáveis: os remédios para combater as doenças que atacam seu organismo devido à baixa imunidade, o notebook, terapeuta eficaz. Foto: Walter Pinheiro Jr.

Companheiros inseparáveis: os remédios para combater as doenças que atacam seu organismo devido à baixa imunidade, o notebook, terapeuta eficaz. (Foto: Walter Pinheiro Jr./Fotec)

Logo em seguida pedi para que me explicasse alguns aspectos do Crohn, de que forma a doença o atingia e o debilitava. “No começo foi tudo muito difícil. Nunca tinha ouvido falar nada sobre o Crohn e nem os médicos tinham certeza quanto ao diagnóstico e qual tratamento seguir. Passei por quatro até conseguir um especialista que me tratasse adequadamente. Perdi o apetite, comia muito pouco. Cheguei a pesar 42kg, tava quase morto de magro (risos). No primeiro momento você pensa em abandonar tudo e se trancar dentro de casa, principalmente porque fica indo muito ao banheiro por causa da diarréia incontrolável. Não da para sair de casa, pelo menos eu e minha família pensávamos assim…”, contou Arthur.

De acordo com ele, a ideia de criar o blog “Meu Mundo Crohn” surgiu mais como forma de ajuda a si mesmo. “Queria desabafar, colocar para fora o que estava acontecendo comigo, tipo um diário mesmo. Escolhi a plataforma blog, mas deixei privado. Depois minha namorada começou a incentivar que eu divulgasse o diário. Paula e meus amigos foram fundamentais para não deixar eu me abater, sempre dando um jeito de me tirar de casa, insistindo para eu sair, ir a uma praia, cinema essas coisas. Nesse período houve muito conflito com minha família, pois por cuidado e falta de informação eles me forçavam a ficar em casa direto e ser extremamente regrado com a comida, o que é muito ruim para alguém com Doença de Crohn. Hoje percebo que era apenas preocupação e eles já aceitam bem a minha rotina diária fora de casa”, explicou Arthur debruçado na cama e olhando a tela do notebook para ver se tinha novos comentários no blog e no Facebook.

O Smartphone toca interrompendo a entrevista. Pela forma carinhosa que o meu entrevistado atende, percebo que do outro lado da linha está Ana Paula, sua namorada há tempo igual ao que tem a doença (cinco anos). Ao desligar, ele continua “Paula foi muito forte também. Quando começamos a namorar foi logo quando descobri o Crohn. Aí você imagina: eu muito magro, abatido, sem vontade de me levantar da cama, nem de transar, pois a medicação diminui muito a libido e a disposição, fiquei muito mal humorado. A ideia de ter que abandonar todos os meus sonhos e planos para viver dentro de casa e hospitais só me tratando, deixava minha auto estima rasteira… Não é todo mundo que aguenta isso do lado de alguém”, afirmou contundente, apesar da voz calma e didática a qual já estou acostumado pelos anos de convívio.

Com a namorada Ana Paula Arrais em noite de comemoração pelos cinco anos de relacionamento. Foto: Walter Pinheiro Jr.

Com a namorada Ana Paula Arrais em noite de comemoração pelos cinco anos de relacionamento. (Foto: Walter Pinheiro Jr./Fotec)

Segundo Arthur, hoje, seu blog serve ao propósito de desmistificar a doença, além de motivar pessoas que se encontram na mesma situação que a dele. Cursando duas faculdades – Design e Produção Cultural – e trabalhando em dois lugares como bolsista e monitor, a sua rotina pesada das 7h às 23h, intimida até as pessoas que se consideram plenamente saudáveis. “Quando pesquisei sobre o Crohn na internet, achei que ia morrer logo. Besteira, tudo mentira. No o meu blog e no Facebook compartilho minhas expectativas, meu dia-a-dia, as angustias, crises de humor, cotidiano, momentos especiais, troco informações sobre remédios, tratamentos – pois a doença atinge cada pessoa de um jeito diferente- e o mais legal, faço amigos das mais variadas partes do mundo. A cada nova postagem, me sinto aliviado em saber que ao buscar sobre o Crohn na Internet, os internautas podem por acaso achar o meu blog e no meio do desespero por informações, saberem que existe a possibilidade real de levarem uma vida extremamente normal”, concluiu.

“O Meu Mundo Crohn” recebe diariamente em torno de 300 visualizações, chegando a momentos de pico, em dias de novas postagens, a quase 2.000 visitas. O garoto natural de Lucrécia, no interior do RN, já foi entrevistado meia dúzia de vezes em veículos locais e nacionais de impresso, TV e Web. Sua medicação contra O Cronh é tomada de dois em dois meses, fora os remédios para eventuais anemias, infecções e urticárias. “Me considero muito feliz sabe Walter? Não sei se vou vencer a doença, mas de certa forma tudo da certo pra mim. Me preocupo em viver, aproveitar os momentos com amigos, fazer tudo que eu gosto e ajudar quem eu puder. Isso é gratificante, e no momento, é o que me basta”, finaliza Arthur.

Da sala de estar para o mundo: no silêncio espaçoso Arthur encontra o melhor local para escrever e atualizar as postagens. Foto: Walter Pinheiro Jr.

Da sala de estar para o mundo: no silêncio espaçoso Arthur encontra o melhor local para escrever e atualizar as postagens. (Foto: Walter Pinheiro Jr./Fotec)

Já passou de 1h da madrugada, toda casa em silêncio, e assim, sem mais nem menos, sem que nenhum de nós dois percebêssemos que a entrevista acabou, começamos a falar das antigas e das próximas “resenhas” em casas de praia, encontros com a turma nos bares, aniversários de colegas, fatos engraçados, profissão, relacionamentos e claro, muitos, muitos projetos para os futuros: o próximo e o distante.

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Responses

  1. Parabéns, Walter, pelas belas palavras que descreveram tão bem Arthur. Me emocionei.


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